terça-feira, 13 de março de 2012

Campanha da ABAP pela livre publicidade para crianças é um tiro no pé



Propaganda para crianças. Quem acompanha meus blogs sabe o que eu penso sobre isso. Para quem estiver lendo aqui pela primeira vez digo, em síntese,  eu sou contra. E não estou sozinha em minha humilde opinião . Pergunte a qualquer pai ou mãe e verá que a esmagadora maioria não está de acordo com o atual discurso publicitário. Dado o aumento da concorrência, da renda média das famílias, da oferta de produtos, as indústrias tornaram-se bastante agressivas na hora de conquistar uma fatia do mercado consumidor. Há algum tempo, elas, as indústrias, chegaram à ideia de que o melhor alvo para a propaganda infantil é o consumidor final dos produtos. Pouco importa se o tal destinatário final da oferta é uma criança pequena sem condições de defender-se do ataque voraz da propaganda . Ética - isso ainda existe?-  virou um vocábulo esquecido embaixo de algum compêndio empoeirado de comunicação. Agora é guerra. Desleal, bem verdade, mas guerra onde de um lado, armados até os dentes estão os veículos publicitários e do outro estão os pais, aqueles que pagam a conta do cartão.

Em uma guerra luta-se com as armas de que se dispõe. E os pais e mães, apesar da desvantagem econômica conseguem se mobilizar não só no Brasil como em muitos outros países. A internet ajuda e muito nesta luta e já existem alguns bons grupos de discussão de pais e mães engajados na causa que não se cansam de debater o assunto. Um projeto de lei já tramita no Câmara dos Deputados visando proibir a veiculação de propaganda destinada a menores de 12 anos. Os MPs de todo o país já vem buscando fiscalizar os excessos das condutas da Publicidade e organizações civis como o Instituto Alana e seu projeto Criança e Consumo são de grande valia. 

A grita dos diferentes setores da sociedade deve ter estar preocupando muito o lado de lá da trincheira. Recentemente foi criado um movimento intitulado "Somos todos responsáveis", trazendo nomes conhecidos das famílias e crianças como Paulo Tatit do grupo Palavra Cantada - que sempre me pareceu passar uma imagem avessa ao consumismo sem sentido -  e o cartunista Maurício de Souza, que dispensa maiores apresentações. Em ações de mídia clássicas -  o movimento tem site, twitter, fan page no Facebook e já fez veicular matérias  em rádios e jornais - circulam matérias pró consumo infantil com declarações espontâneas - termo aliás bem frisado - de pessoas comuns e figuras públicas, como o próprio Maurício de Sousa.

A ABAP - Associação Brasileira das Agências de Publicidade, que está por trás do movimento - e quem mais poderia ser? -  levanta bandeiras que incluem a liberdade de expressão, a garantia da qualidade da programação infantil ( com o din din da publicidade) e a ideia de que os pais devem sozinhos blindar os filhos das ideias da propaganda. Dedo no olho não vale, gente.

Sabe qual o mais curioso disso tudo? A fragilidade dos argumentos das Agências:

- A apresentação de um link de um depoimento espontâneo, claro,  onde Roberto Justus defende a propaganda brasileira e se posiciona contra a proibição da publicidade para crianças. Mas o Roberto Justos é o que mesmo? Publicitário e CEO do maior grupo de comunicação e publicidade do país. Bem , talvez então ele deva ser o publicitário que mais deverá perder com uma possível proibição.  Ah, então tá.

- O site do movimento traz ainda um conhecido de tantas gerações com sua adorável turma da Mônica, fazendo um apelo interessante por uma publicidade com amor. Diz Maurício que está faltando " os país correrem um pouco mais atrás do que está acontecendo  no mundo, na publicidade, na informação , na comunicação" Maurício, que faz um trabalho do qual pessoalmente sou fã desde meus cinco anos, me deixou bastante decepcionada com sua fala. Afinal, eu sei o que está acontecendo no mundo e até na publicidade, na informação e na comunicação. Mauricio de Sousa assinou  em outubro do ano passado, através de sua empresa Mauricio de Sousa Produções Ltda. com Panini Brasil Ltda. e,  em 16 de fevereiro último foi homologado um TAC - Termo de Ajustamento de Conduta - com a Promotoria de Justiça de Defesa dos Interesses Difusos e Coletivos da Infância e Juventude de São Paulo. Segundo a fonte, Instituto Alana, o TAC é resultado de uma denúncia feita pelo Projeto Criança e Consumo ao Ministério Público em 2008, após a constatação de abusividades nas publicações das revistas 'Turma da Mônica'. O Projeto identificou a presença de maçante apelo publicitário dirigido ao público infantil, com comandos imperativos, e inseridos de maneira mascarada. Chato isso, não? Fonte


_A comunidade do movimento, criado por uma agência de publicidade , não conseguiu até agora mobilizar pais e mães para a sua causa, tudo o que se vê na discussão da página são manifestações de apoio de funcionários, estagiários e até parentes do dono da agência. Nem mesmo os autores dos depoimentos espontâneos curtem os links. 

A comunidade está  banindo qualquer um que tentar aprofundar o debate, e com comentários para lá de desastrosos. Saiba mais no post do blog Ombudsmãe de ontem. E isso, bem, é o fim da picada.

É por essas e outras que tenho confiança de que em breve teremos uma regulação mais severa para esta matéria. Pois nem dispondo de todo o recurso econômico possível a ideia da publicidade direcionada para crianças - que não tem discernimento para votar ou para reger suas pessoas e bens mas são convocadas diariamente a comprar sem cessar neste mundo em que ser consumidor é mais importante do que ser cidadão- consegue fazer sentido. 

Update _ Se você está no Facebook , se interessa pelo assunto e gostaria de participar de um grupo de pais e mães que está do lado de cá da trincheira, conheça a Página Infância Livre de Consumismo

* A imagem é da capa do livro Consumer Kids : How big business is grooming our children for profit 


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