terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Contar histórias ou estórias?



Tenho falado tanto aqui no blog sobre contação de histórias por conta do projeto Rainhas do Livro - não conhece? clique aqui - que ando prestando muita atenção à grafia da palavra. Afinal, é história ou estória?  Eu sempre usei história sem qualquer distinção para a tal da  história seja ela real ou ficção . Algumas pessoas usam estória para os contos ou tudo o que seja 'inventado".  Como ainda vou falar muito sobre histórias por aqui,  o espaço para um guest post assinado por especialista no assunto, a professora Andréa Motta do blog Conversa de Português. O texto foi originalmente publicado no blog Leio o Mundo assim em dezembro de 2008.

História e estória - uma discussão linguística 
Quem me lê sabe muito bem que não costumo usar o blog para, como diz a língua do povo, "puxar sardinha para a minha profissão", mas eu estava passeando pelos blogs e encontrei a seguinte discussão: história ou estória? Ou ambos? Já que Letras é minha área, senti-me quase na obrigação de responder.


Ao ler o texto de um leitor naquele outro blog, lembrei-me das aulas de Filologia Românica na graduação e, conseqüentemente, do professor Evanildo Bechara, que nada mais é do que o grande mestre de quem faz o curso de Letras. Bechara lecionava na universidade onde me formei e , naquela época, circulavam pelos corredores dois textos seus recém-publicados, cujo título era História e Estória.


Em História e Estória (texto publicado em 6 de maio de 1994, no Jornal O Mundo Português), o professor explanava sobre a legitimidade do vocábulo estória e do uso que lhe é atribuído. Bechara acabara de ler um artigo sobre o mesmo tema e resolveu esclarecer essa história. Dizia o seu artigo:


"No pensar do articulista , 'história (com h) significa o relato de fatos históricos, isto é, de fatos verídicos e autênticos do passado; já estória significaria o 'relato lendário ou de ficção'. 
A tese defendida aqui não tem nem fundamento histórico, nem necessidade que a justifique. Pelo contrário, vem trazer confusão nesta nossa debatida questão ortográfica, já de si complicada e difícil".


Ao longo dos dois artigos, o professor faz seu leitor viajar através da etimologia do vocábulo e lembrar-se das formas arcaicas hestória e storia, presentes na fase antiga do idioma português. Não estaria aí, então, a justificativa para os dois usos? Não, é a resposta do professor Bechara, uma vez que a língua portuguesa antiga era uma balbúrdia e era possível encontrar, muitas vezes, em um único parágrafo os dois vocábulos usados com o mesmo sentido. Isso era possível, pois os escritores não estavam preocupados com a fonte latina da língua portuguesa e desconheciam o uso correto da letra h.


No segundo artigo, Bechara observa que esse costume lingüístico foi iniciado por João Ribeiro que estabeleceu um paralelismo que se observa com a língua inglesa, em que existem as duas formas : history (que corresponde à história) e story (que equivale a estória).


Para encerrar a questão, o professor voltou-se para a origem da língua portuguesa:


"A única grafia cientificamente defensável é história, nos vários sentidos que o vocábulo pode assumir, porque vem do latim historia, que tinha estes mesmos vários empregos. (...) Os outros idiomas irmãos do português ainda não deram com essa falha em seus léxicos. Estória em vez de história será para nós, falantes de língua portuguesa, a ostentação de um luxo inútil e destoante, que servirá apenas para fazer reluzir à luz do dia a nossa extravagância no uso do idioma materno." (grifo meu)

De fato, o vocábulo estória caiu em desuso (como costumamos dizer) e meus colegas de Língua Portuguesa não o ensinam mais, principalmente após a publicação dos artigos de Bechara no Jornal O Mundo Português. Se alguém ainda o faz, é hora de atualizar-se. 

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