segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

Lendo os clássicos para as crianças



"Fazia um frio terrível. A neve caía e dali a pouco ficaria escuro. Era o último dia do ano: véspera de ano-novo. Nas ruas frias, escuras, você poderia ver uma pobre menininha sem nada para lhe cobrir a cabeça, e descalça. Bem, é verdade que estava usando chinelos quando saiu de casa. Mas de que adiantavam? Eram chinelos enormes que pertenciam à sua mãe, o que lhe dá uma ideia de como eram grandes. A menina os perdera ao atravessar correndo uma estrada no instante em que duas carruagens avançavam ruidosamente e numa velocidade apavorante. Não conseguiu achar o pé dos chinelos em lugar nenhum, e um menino fugiu com o outro, dizendo que um dia , quando tivesse filhos poderia usá-lo como berço. " 

Assim começa o conto a Pequena vendedora de fósforos , de Hans Christian Andersen, que denúncia a miséria e seus efeitos na Europa do século XIX. Passados 166 anos da sua primeira publicação, o conto resiste como clássico por tratar de um tema humano e ainda não ultrapassado. Eu li essa história quando criança e ela me impressionou muito. De todos os contos infantis é o que mais me marcou. Curiosamente é um dos poucos contos famosos que não teve modernização da Disney. Meu palpite é de que não há como pintar esta triste história de uma maneira palatável para os pequenos. A história é triste e ponto final. Não dá para omitir as partes dolorosas, como no caso de Os três porquinhos, em que dois dos irmãos são comidos pelo lobo com a maior facilidade para no final o próprio lobo virar cozido do terceiro irmão. Do mesmo modo não é possível atenuar o sofrimento como Disney fez com A pequena sereia, que na versão animada não sente terríveis dores nos pés, ao deixar de ser um ser marinho. A pequena vendedora de fósforos morre mesmo no final , de fome, de cansaço e principalmente de frio e falta de amparo. Acho que a leitura dos clássicos infantis é primordial para o desenvolvimento das crianças. A apresentação dos arquétipos e dos debates presentes em cada conto clássico ajudará - este é o meu modesto entender de mãe - as crianças a compreenderem a si mesmos,  ao mundo e seus desafios, além dos outros seres humanos com quem deverão conviver no futuro. 

Mas como, eu me perguntava, deveria apresentar os clássicos para o menino de 3 anos? Não queria a ajuda do audiovisual para dar à imaginação do meu filho a chance de trabalhar e criar imagens mentais das histórias. Então comecei contando  sozinha e dramatizando, sem os livros. Na escola, ao mesmo tempo e por sorte , ele foi sendo apresentado aos contos com o auxílio dos livros nas contações. E agora, a medida que vejo que ele está totalmente familiarizado com cada conto - como o caso dos três porquinhos - eu apresento a versão original. Isso foi um pouco antes de levá-lo para ver uma peça Os três porquinhos, o musical, em que os personagens principais cantam black music. Assim, ele foi capaz de compreender que aquilo era uma outra maneira de contar a mesma história que ele já conhecia de cor. Estava diferente, mas não errado, era uma outra versão. 

Ele não se conforma muito de o caçador, seu personagem principal de Chapeuzinho Vermelho, não aparecer no conto original , afinal o caçador é que pega o lobo. Em uma das  primeiras versões,  além de não haver caçadores, o lobo come não só a vovozinha,  ele come chapeuzinho também. E antes que vocês me chamem de mãe desnaturada que conta clássicos infantis nas versões punk eu explico. Meu filho nunca teve medo do lobo. Nas dramatizações ele sempre É o lobo. Sei onde estou pisando e ele sabe o que está sendo contado. Assim como cada mãe sabe o que pode contar a cada filho em cada momento. 

E para ninguém dizer que eu sou uma mãe louca contra Disney, achei um curta que concorreu ao Oscar em 2007 produzido pelos Estúdios Disney narrando com quase nenhuma modificação do original o conto A Pequena Vendedora de Fósforos. Só pretendo apresentar ao meu filho quando ele já tiver maturidade intelectual suficiente para compreender a tudo o que se passa na história, mas está muito bonito.



Bom essa é minha experiência com os clássicos. Qual a sua? Conte aí nos comentários e apareça para debater este que é o tema da semana no Grupo Rainhas do Livro


* imagem de Arthur Rackham, 1932

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