sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mães pelo mundo – França

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A entrevistada da coluna Mães pelo mundo desta semana – e a coluna agora passa a ser publicada toda sexta – é Adélia do blog Pedalando em Paris. Adélia é mãe do pequeno Rafael e conta um pouco da experiência de criá-lo em Paris, das dificuldades para conseguir vagas em creches, do sistema de compartilhamento de babás comum no país e de como ela – eu também - se espanta com a terceirização de bebês que acontece no Brasil. Leia a entrevista abaixo.

Há quanto tempo você mora fora do Brasil? Seu filho/ filhos nasceram fora?
Moro na França ha' quase 6 anos. Meu filho Rafael, que tem hoje 1 ano e 10 meses, nasceu aqui em Paris.



Como seu filho vivencia sua dupla identidade cultural?
Como ele ainda é pequeno, o processo tem sido muito natural. Eu e meu marido somos brasileiros e so' falamos português em casa. O Rafael fica com uma baba' enquanto trabalhamos e ela so' fala francês com ele. Fiz questão de arrumar alguém que fale bem francês e somente francês, porque assim ele vai aprendendo naturalmente as 2 linguas e entrara' na escola sabendo falar francês. Ele ja' fala varias palavras, a maior parte ainda em português. Mas ja' reparei que com a gente ele fala mais em portugues e com a babá ele fala mais em francês. E' curioso de ver que ele ja' sabe a diferença: o idioma do papai e da mamãe o o idioma da babá.



Como é o lazer das famílias na França?
Aqui na França existem muitas opções de lazer para as crianças, de todas as idades, e muitas são oferecidas pelas proprias prefeituras das cidades. Aqui onde moro tem uma biblioteca incrivel para as crianças, com contadora de historias e tudo. Vamos na piscina publica toda semana. Existem muitos parques publicos, so' aqui perto de casa tem uns 3, e o Rafael vai quase todos os dias com a baba'. Quando faz muito frio ou o tempo esta' ruim vamos na brinquedoteca da cidade. Além disso, aqui não tem essa de ter empregada ou baba' a tempo integral em casa, então as familias realmente se ocupam dos proprios filhos. E' comum ver familias com crianças visitando museus, exposições, viajando. Como o verão dura pouco tempo, as familias aproveitam para fazer atividades fora de casa, fazer piquenique no parque, andar de bicicleta, etc. Ninguém fica em casa! E durante o periodo de férias escolares sempre tem muitos espetaculos. Antes eu achava que Paris era uma cidade para adultos, mas depois que tive o Rafael, acho que é uma cidade maravihosa para as crianças. Coisa para fazer aqui com os pequenos é o que não falta. Inclusive tenho escrito bastante la' no blog das coisas que descubro para as crianças aqui em Paris. Para a minha surpresa, muitos brasileiros vem passear aqui com seus filhos e aproveitam algumas das minhas dicas.


Quais as principais diferenças culturais e econômicas e educacionais você encontrou aí em relação ao Brasil no que diz respeito a criação dos filhos, relacione prós e contras , por favor.
Aqui na França existem muitos incentivos para que os pais passem mais tempo com seus filhos. A licença-maternidade é relativamente curta, apenas 16 semanas, mas existe a possibilidade de prolongar essa licença com uma licença não-remunerada por até 3 anos, e a lei garante que o empregador te dê o mesmo cargo e mesmo salario no momento em que você quiser. Durante essa licença existe uma ajuda financeira do governo. Como eu queria amamentar o Rafael exclusivamente até os 6 meses , eu peguei essa licença e so' voltei a trabalhar quando ele tinha 8 meses. Outra coisa bacana que existe é a possibilidade de trabalhar em tempo parcial, que se um dos pais desejar, o empregador é obrigado a aceitar. E foi o que fiz também. Não trabalho as 4as feiras e esse é o dia em que me dedico exclusivamente ao meu filho. O salario é proporcional ao tempo de trabalho, mas vale a pena, porque ganho em qualidade de vida com o meu filho.


Algo que ainda considero ruim na França é o sistema de creches. A maioria é publica, elas são de otima qualidade, mas não ha' vagas para todos, principalmente nas grandes cidades. Tentei vaga pro meu filho por 1 ano (fiz a inscriçao ainda gravida) e não consegui. E então tive que pesquisar outras alternativas, nem sempre faceis de conseguir. A solução que encontrei, que é a solução praticada por muitas familias, é "dividir" uma baba'. Ela cuida do meu filho e de um menino da mesma idade de uma outra familia, que mora aqui pertinho de casa. Eles ficam 15 dias em casa e 15 dias na casa da outra familia. As despesas com o salario da baba' sao divididas porque aqui poucos podem se dar o luxo de pagar o salario integral de uma baba'. A vantagem que vejo nesse esquema é que o Rafael não passa o dia sozinho com um adulto. Ele brinca e aprende a dividir as coisas com outra criança. Os 2 meninos se adoram. Outra diferença é que a baba' possui uma formação (não todas, mas é bem comum). Contratei a nossa por uma agência, que forma as babas e dão cursos de continuidade todo mês. As pedagogas fazem visitas regulares às casas das familias para ver o desenvolvimento das crianças, o ambiente em que elas se encontram e eventualmente para tirar duvidas das babas. Gosto muito desse lado de valorização da profissão de baba'. Afinal de contas, elas cuidam do que temos de mais precioso na vida.


Seja qual for a alternativa encontrada para cuidar da criança enquanto eles são pequenos, é sempre pago. Seja em creche ou com baba'. Por isso muitas mães decidem parar de trabalhar até a criança completar 3 anos. A partir dos 3 anos, se a criança não usa mais fralda, ela vai para a escola. A maior parte das escolas sao publicas, elas sao obrigadas a ter vaga para todo mundo (diferente das creches) e em geral elas são muito boas. Meu filho com certeza vai para uma escola publica.


Quanto à criação dos filhos, acho que ainda existe muita diferença com a mentalidade no Brasil. Claro que nem todas as mães brasileiras são assim (ainda bem!), mas cada vez que vou ao Brasil me espanto com o numero de mães (amigas minhas, inclusive) que delegam a criação dos filhos as babás. Babás que dormem no emprego, passam até fim de semana, vejo mães com babá de uniforme a tiracolo no shopping no fim de semana ou em restaurantes. E isso me choca. Aqui não existe isso. Mesmo quem tem babá em casa, ela só cuida das crianças enquanto os pais estão ausentes. O pai ou a mãe chegam e a babaá vai embora cuidar da vida dela. Prefiro mil vezes esse esquema. O filho é nosso e nós é quem cuidamos.


Mas o que sinto falta mesmo é da familia. Não apenas para dar uma força de vez em quando (o que nos evitaria ter que recorrer à baby-sitters), mas para fazer parte da rotina do Rafael. Até que vemos com frequencia a nossa familia (nossos pais principalmente), mas gostaria que o Rafael fosse criado mais proximo à familia: primos, avos, tios, etc. Por isso ja' decidimos que apesar de todas as vantagens em criar nosso filho aqui, em breve voltaremos ao Brasil. E' o nosso lugar e é onde se encontram as pessoas que amamos.


*imagem arquivo pessoal

2 comentários:

  1. Adelia,
    parabéns pela entrevista ! também fico chocada com essa terceirização !

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  2. De,
    Essac oisa de terceirizar os filhos tambem me choca, e o pior que parece normal.
    Adorei a netrevista.

    Bj
    Carol P

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