terça-feira, 12 de julho de 2011

Hiperativo ou mal educado?

bart

Sala de espera da pediatra, primeira consulta. A Caxias aqui chega 10 minutos atrasada e pede mil desculpas, 30 segundos depois se arrepende. O recinto está repleto de crianças esperando há muito tempo pelo atendimento. Meu filho, que odeia ir ao médico, chora baixinho dizendo que não quer entrar e corta o meu coração. Ele não quer brincar com as outras crianças. Três delas, entre um e três anos, fuçam os brinquedinhos da salinha. Um menino de 10 anos aparenta cansaço decorrente da espera de horas. Um recém nascido também está na fila naquela cheia de gente e eu consolando o choro do filho. “ Num quero ir ao médico, mãe eu não tô doente!” Bate o desespero. Eu só estou ali para ter uma segunda opinião sobre alguns assuntos que não são sérios, mas eu preciso da opinião então decido esperar e tentar acalmar meu bebê.

Quando o choro pára eu posso começar a prestar mais atenção nas crianças menores. A brincadeira é caótica e não demoro a entender o motivo que atende pelo nome – fictício – de Felipa . Felipa está próxima de completar 3 anos e é grande para a idade. Fala pouco e se movimenta muito. As duas crianças menores ficam andando atrás de Felipa que as ignora e se nega a partilhar os brinquedos. Felipa demonstra estar desassossegada, anda de um lado para outro, mexe em tudo , rouba um termômetro da gaveta da atendente, entra num pequeno escritório e desliga o computador, pega o telefone sem fio e joga no chão. A mãe ? Impassível, resume-se a dizer que “ essa menina não pára!” Isso eu já vi. Fico irritada. Detesto criança mal educada. Culpa da minha mãe sargento que me incutiu uma educação militar. Sem contar o meu jeito , eu sou paradona.

Incomodada , mudei para um lugar mais distante da Felipa. Comecei a me recriminar intimamente. Eu sou uma chata e ela é só uma criança com uma mãe que não presta atenção nas coisas, pensei Tento me distrair conversando com o filho mas ele não está pra muito papo e pede para ir brincar . Felipa entra em ação e começa a andar atrás dele empurrando brinquedos e querendo puxar os que estão com ele. Eu observo sem intervir porque meu filho é bem maior que ela e também mais velho, ele precisa se defender . Vejo que ele o faz, ignorando solenemente Felipa. Ela começa a querer chamá-lo para brincar pegando os bonecos e colocando as mãos bem perto dos olhos, o que me deixa aflita. Felipa faz isso com todas as crianças na sala, inclusive o recém nascido. Mão na cara, dedo no olho. E a mãe ?  Até então apenas  chamava a atenção assim, como quem não chama atenção de nada, mas começa a ficar com vergonha quando vê que eu tenho que impedir Felipa de cegar o Ernesto a cada 2 ou 3 minutos. Ela tenta de tudo e nada adianta. Felipa simplesmente não ouve ou finge não ouvir, os barulhos pelo consultório indicam provável desabamento em minutos, mas é só Felipa.

Uma hora e meia depois, a clientela na sala de espera já foi renovada e outros pais, mães e crianças aguardam.  Começo a observar que não sou a única incomodada, Felipa virou persona non grata e a atentende sugere que a mãe espere no corredor. Quando ela sai , suspiros aliviados. E um pai com o filho de um ano ao meu lado , conversa com o Ernesto. “ Tá com medo do médico? Eu tô com medo é da Felipa!”

Deu pena. Felipa , para meus olhos de leiga completa e absoluta, tem muitos sintomas de hiperatividade. A mãe não parece ter a menor ideia do que isso venha a ser . Também parece alienada ao fato de que sua filha consegue ser mal vista num grupo após pouca convivência. Imagine quando chegar a hora da escola? Entramos no consultório e a médica se revelou competente o suficiente para eu não me arrepender do episódio . Mas fiquei com vontade de pedir a ela para observar o comportamento de Felipa e sugerir uma avaliação psicológica para que ela não cresça sem saber se precisa de mais atenção antes de ser julgada como inconveniente. Por conta disso publicarei uma série de artigos sobre hiperatividade infantil (TDAH)  a partir da próxima semana.   

 

3 comentários:

  1. Vanessa, não saberia julgar uma criança superativa, mas lendo seu relato, acho que muitas vezes, crianças como Felipa são apenas maleducadas mesmo, com pais que não colocam limites e educam. E qualquer que seja o caso, exige atenção e cuidado. Beijocas

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  2. Oi!

    Como mãe de uma menina que já foi indicada como hiperativa e também professora de alguns alunos com diagnóstico de TDAH, te digo que é fácil, sim, confundir falta de limites/educação com hiperatividade.

    Mas, sobretudo, é possível ver que há pessoas que querem mais é sossego pras idéias e não quererm ter de se incomodar com dar esses limites. Transferem essa responsabilidade para o pediatra que dará uma medicação, a escola, que dará alguma pun ição, enquanto ela continuará com a sua postura de está tudo bem e não passará por maluca, coisa que acontece com muitas das mães que se envolvem-se realmente com a educação das crianças.

    Também é preciso ver se essa menina não estava simplesmente querendo ter atenção dessa mãe e chamando-a para percebê-la no ambiente enquanto esta simplesmente fazia comentários ou lia uma revista.

    Meus filhos também pedem limites e isso não faz deles hiperativos. Tem dias em que estão mais ativos, principalmente nesses dias em que ficamos mais em casa por conta do frio.Ficam doidos pra brincar no parque, no clube, na rua, na pracinha...É como se a energia acumulasse. E quando têm platéia, sabem como ninguém ser desafiadores.

    Como eu fui considerada uma pessoa com tendência à distração e hiperatividade, busco primeiro a explicação dos especialistas, claro, mas também conhecer meus filhos, para que não sejam rotulados nem usem medicação desnecessariamente. Esse é um cuidado que precisamos ter. Hoje em dia parece que somos todos portadores de TDAH, depressão ou bipolaridade.

    E, de acordo com os vários especialistas que consultamos, minha filha, que chegou a usar ritalina por um tempo, é muito normal. Apenas ansiosa de vez em quando.

    Abraço, obrigada por levantar essa questão!

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    Respostas
    1. Bom dia!!! Eu tenho um filho assim hiperativo e que tem o nome de Felipe....por varias vezes ja ouvi de inumeras pessoas que eu nao dou educação que ele mexe em tudo e com todos, que eu não dou limites....mas oq as pessoas nao entendem é q nao é facil meu filho tem apenas 5 anos e meio e a 1 ano ja tem acompanhamento com psicologa .......ele fala alto nao para um instante é desatento e por vezes simplesmente ignora as regras....infelizmente deixo de sair de casa para restaurantes e varios outros lugares para nao ouvir pessoas reclamando do comportamento...ja cheguei a brigar com uma pessoa q disse que ele tem problemas mentais....criança com TDAH não são faceis....

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