quarta-feira, 23 de março de 2011

Por Uma Infância sem Racismo

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Racismo é uma palavra cujo significado eu gostaria que meu filho não precisasse conhecer. Mas, um dia , quando estiver mais longe  dos seus 3 aninhos, ele precisará lidar com isso, como eu precisei.

Meu pai era o que pode ser chamado mulato. Eu tenho dificuldade em definir a cor do meu pai porque no Brasil temos tantas raças diferentes miscigenadas , que o brasileiro acaba saindo como uma cara que pode ser de qualquer raça. Desde pequena eu procurei tentar descobrir minha raça; já que estudava em uma escola de classe média com maioria branca e meu cabelo cacheado era muito diferente. Não lembro de ter sido discriminada por causa disso, mas que era diferente, isso era. E isso porque meu pai , que era filho de um mulato brasileiro com uma cabocla de olhos verdes ( minha avó era filha de um espanhol com uma índia “caçada no mato – gente meu bisavô um dia saiu de casa e decidiu caçar uma índia pra casar , pode um troço desses? E ainda diz a lenda que eles foram muito felizes) Então meu pai saiu o que alguns chamam mulato claro ou moreno e essa é metade da história.

Minha mãe é branca. Cem por cento branca, seja lá o que isso signifique. É neta de portugueses e italianos e resolveu casar com o meu pai, até que um dia ele resolveu casar com ela também e eu nasci. Nasci eu, metade miscigenação nos moldes do descobrimento e colonização, metade miscigenação nos moldes da imigração. E o que eu sou ?  Mulata a 50% e é por isso que eu fico bronzeada com 5 minutos de sol e vivo lutando contra o cabelo cacheado ? Branca a 50% e é por isso que a pele não é escura? Mas e a cara de turca? Veio com o avô italiano de presente. Mulata com cara de italiana é o que faltava. É por isso que quando eu era criança ficava difícil me definir numa raça. É difícil até hoje. Felizmente sou todas as raças, ou a maioria delas, já que não apareceu nenhum judeu ou japonês na árvore genealógica lá de casa. Partindo daí fica até ridículo colocar racismo no meu dicionário. Mas, racismo existe, por mais ridículo que seja.

Lembro perfeitamente do dia em que eu sai na rua com uma tia, tão mulata quanto eu, mas sei lá, digamos que com a pele num tom acima , que é casada com o irmão do meu pai. Na manhã seguinte na escola , uma colega disse ter me visto na rua passeando com a empregada. Depois dos meus protestos veementes e do seus pedido de desculpas eu aprendi o que era racismo e conclui que para alguns realmente existem classes de pessoas de acordo com a cor da pele e que um negro é sempre necessariamente empregado subalterno. 


Um livro que li há alguns anos e me fez encontrar minha identidade racial foi O Povo Brasileiro de Darcy Ribeiro , ali ele diz:

Todos nós, brasileiros, somos carne da carne daqueles negros e índios supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui se conjugaram para fazer de nós sentida e sofrida que somos e a gente insensível e brutal, que também somos. Como descendentes de escravos e de senhores de escravos seremos sempre servos da maldade destilada e instilada em nós, tanto pelo sentimento da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre crianças convertidas em pasto de nossa fúria."
"A mais terrível de nossas heranças é esta de levar sempre conosco a cicatriz de torturador impressa na alma e pronta a explodir na brutalidade racista e classista."
Minha esperança de mãe no trabalho com educação de meu filho hoje é que ele possa, ao ser confrontado com esta realidade tacanha, continuar o mesmo menino autenticamente brasileiro que hoje brinca com seus amigos de todas as cores . Espero que ele possa ser capaz de distinguir as pessoas pelo que realmente importa , algo que não tem nenhuma relação com a raça e que é chamado caráter.

Este texto é parte da blogagem coletiva proposta pelo blog Desabafo de Mãe

5 comentários:

  1. Oi Vanessa!
    Hoje estou totalmente sintonizada com você.
    O racismo ainda é um grande preconceito, do qual vem sendo "plantado" de geração em geração. Como o próprio vídeo diz, a criança não nasce com preconceito, lhe é introduzido o preconceito.
    Muito bom o texto.
    Xeros

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  2. Oi, Vanessa! Vc "mudou a cara" deste BLOG? Estou estranhando... por que nunca estive aqui antes? kkk! To cheia de coisas para comentar, mas o meu pequeno de tres anos, nao para de falar e eue nao consigo me concentrar! kkkk! Depois eu volto! Parabens!!!! Bjka!

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  3. Adorei a postagem. A gente lê sem respirar!

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  4. Oi... conheci o seu blog pelo o desabafo de mãe.
    O Brasileiro não deveria em momento algum ter preconceitos... pois quase tds somos misturinhas, assim q defino o meu filho,o pai é Japonês...
    Esses dias uma vendedora definiu o meu filho como Brasileiro... rsssssssss, pois o Brasil é assim, uma mistura!!!!
    Bjus até mais...

    http://kenjieafins.blogspot.com

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  5. Oi... conheci o seu blog pelo o desabafo de mãe.
    O Brasileiro não deveria em momento algum ter preconceitos... pois quase tds somos misturinhas, assim q defino o meu filho,o pai é Japonês...
    Esses dias uma vendedora definiu o meu filho como Brasileiro... rsssssssss, pois o Brasil é assim, uma mistura!!!!
    Bjus até mais...

    http://kenjieafins.blogspot.com

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