quarta-feira, 9 de fevereiro de 2011

Depressão Infantil

depressão

Depressão. É comum ouvirmos falar em casos de desânimo e falta de vontade de viver relacionados a adultos. Infelizmente não é coisa de gente grande. Cada vez mais crianças vem sendo diagnosticadas como portadora da doença que pode comprometer o dia-a-dia dos pequenos. Com intenção de debater o tema, reproduzo aqui trecho de entrevista concedida a Drauzio Varella pela Dra. Sandra Scivoletto é médica psiquiatra, professora da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, coordenadora do Grupo de estudos Álcool e Drogas e responsável pelo Ambulatório de Adolescentes do Hospital das Clínicas da FMUSP.

Drauzio – Quais são os sinais de depressão que devem ser observados na criança, uma vez que ela não reconhece que está deprimida?

Sandra Scivoletto – A criança tem grande dificuldade para expressar que está deprimida. Primeiro, porque não sabe nomear as próprias emoções. Depende do adulto para dar o significado daquilo que se chama tristeza, ansiedade, angústia. Por isso, tende a somatizar o sofrimento e queixa-se de problemas físicos, porque é mais fácil explicar males concretos, orgânicos, do que um de caráter emocional.
Alguns aspectos do comportamento infantil podem revelar que a depressão está instalada. Por natureza, a criança está sempre em atividade, explorando o ambiente, querendo descobrir coisas novas. Quando se sente insegura, retrai-se e o desejo de exploração do ambiente desaparece. Por isso, é preciso estar atento quando ela começa a ficar quieta, parada, com muito medo de separar-se das pessoas que lhe servem de referência, como o pai, a mãe ou o cuidador. Outro ponto importante a ser observado é a qualidade de sono que muda muito nos quadros depressivos.
O que se tem percebido nos últimos anos é que a depressão, na infância, caracteriza-se pela associação de vários sintomas que vão além da ansiedade de separação manifesta quando a criança começa a freqüentar a escola, por exemplo, e incluem até de medo de comer e a escolha dos alimentos passa a ser seletiva.
Portanto, se a ansiedade de separação perdurar e a criança reclamar o tempo todo de dores de cabeça ou de barriga e nunca demonstrar que está bem, é sinal de que pode estar com depressão.

Drauzio – Quais são as características do sono da criança deprimida?

Sandra Scivolletto – Na depressão infantil, o sono começa a ser interrompido por pesadelos e o medo de ficar sozinha faz com que reclame e chore muito na hora de dormir. Não é o choro de quem quer continuar brincando. É um choro assustado, indicativo do medo que está sentindo o tempo todo.

Drauzio – Quando os quadros de depressão passaram a ser reconhecidos na infância?

Sandra Scivoletto – O reconhecimento da depressão na infância é relativamente recente na Psiquiatria, justamente pela dificuldade que a criança tem de referir-se ao que sente. Por isso, muitas vezes, era considerada portadora de fobias específicas, tais como os transtornos comportamentais e a ansiedade de separação. Também, foi só há mais ou menos 20 anos, que a doença passou a ser reconhecida em adolescentes, pois sua forma de expressão é diferente da dos adultos.

Drauzio – Como você diferencia a depressão dos distúrbios de hiperatividade e atenção?

Sandra Scivoletto – Na criança, é bem fácil diferenciar a hiperatividade da depressão. Criança hiperativa não pára quieta, mexe-se o tempo todo, principalmente os meninos. Entretanto, existe um subtipo de hiperatividade que se caracteriza pela desatenção. A criança não é hiperativa fisicamente, mas não consegue focar a atenção. Muitos a consideram desligada, ela se retrai e vai abandonando as atividades. No entanto, nunca é uma criança triste.
Ao contrário, criança deprimida logo demonstra que não se interessa por nada e não há brincadeira que a faça sentir-se melhor. Fica parada o tempo todo e quer sempre alguém em que confie por perto.

Drauzio – Crianças deprimidas perdem a iniciativa?

Sandra Scivoletto – Perdem a iniciativa e deixam de aprender. Na escola, apresentam várias dificuldades de aprendizado e, num primeiro momento, são encaminhadas para a avaliação do oftalmologista, do otorrino, da fonoaudióloga. Passam também por testes específicos para o déficit de atenção e hiperatividade. No passado, o diagnóstico de depressão era feito por exclusão. Hoje se sabe que sintomas como alterações do apetite e do sono, diminuição da atividade física, medo excessivo, duradouro e persistente, são próprios da depressão infantil.

Drauzio – Existem fatores desencadeantes que aumentam o risco de quadros depressivos nas crianças?

Sandra Scivoletto – Existem. Como nos adultos, luto, perdas, separação dos pais, dificuldade de adaptação a situações novas, mudança de escola e de domicílio podem gerar estresse, que vai desgastando a criança e conduzindo a um quadro depressivo. No entanto, na maioria dos casos, existe um componente hereditário, genético, mais significativo do que nos adultos, responsável pelo desencadear quadros de depressão na criança.

Drauzio – Filhos de pais depressivos ou com parentes próximos com quadros de depressão correm maior risco de apresentar o problema?

Sandra Scivoletto – Correm, e a depressão que se inicia na infância, geralmente, é mais grave. Por isso, a criança deve ser tratada o mais rápido possível.

Drauzio – Qual é o inconveniente de não diagnosticar a doença e não iniciar o tratamento precocemente?

Sandra Scivoletto – Primeiro, a dificuldade de aprendizado é grande. Depois, a criança vai crescer achando que a alegria estampada nas outras pessoas não foi feita para ela e conforma-se com esse referencial. Mais tarde, quando adolescente, estará mais propensa ao uso de drogas, porque irá procurar alguma coisa que alivie esse desconforto permanente. Não é possível que só os outros consigam ser felizes.

Drauzio – Num primeiro momento, as drogas fazem isso num piscar de olhos…

Sandra Scivoletto - Juntar o imediatismo próprio do adolescente com o alívio momentâneo que a droga dá é um caminho que passa a falsa impressão de que o problema está resolvido. Isso torna a situação mais difícil ainda. Quando ouve que deve abandonar o uso de droga, ele argumenta: “Logo agora que estou me sentindo bem e sem a droga passo mal?”.

Drauzio – Nos adultos, a estimativa é que para os quadros depressivos sejam mais freqüentes nas mulheres (três mulheres para cada homem). Nas crianças, essa diferença entre os sexos também existe?

Sandra Scivoletto – Na infância, a ocorrência de depressão é praticamente igual nos dois sexos. A diferenciação começa na adolescência, fase em que as meninas são mais vulneráveis e, sem dúvida, a questão hormonal interfere consideravelmente nesse processo.

Drauzio – Respeitadas as diferenças de cada família, como costuma ser o comportamento dos pais diante de um filho com depressão?

Sandra Scivoletto – A primeira reação, principalmente se existem outros filhos, é de alívio. “Que bom, como ele é quietinho, não dá trabalho nenhum!”, eles dizem, porque durante o dia não demanda atenção, fica quietinho no seu canto. Todavia, à noite, quando afloram os medos, ele começa a incomodar o casal, porque não quer ficar sozinho, nem deixa os pais saírem de perto. Essa dificuldade de desligar-se acaba gerando conflito entre os cônjuges. O pai acha que a mãe está superprotegendo a criança que está cada vez mais mimada. O que acontece com a maioria dos filhos? Longe dos pais, da mãe principalmente, eles são ótimos, alegres, comunicativos. Já a criança deprimida fica quietinha num canto, não brinca. Não é que seja muito agarrada à mãe. Mesmo longe dela, mostra-se retraída, quieta.
Os pais têm enorme resistência em entender esse comportamento como doença. A primeira leitura é interpretá-lo como erro de criação e sentem-se culpados. Na grande maioria dos casos, a criança é encaminhada para psicólogos e só depois de um ou dois anos, quando a terapia não resolveu, é que procuram outro profissional.

Drauzio – Como vocês lidam com esses casos?

Sandra Scivoletto - Temos trabalhado muito no sentido de sair do consultório e do ambiente hospitalar para atuar nas escolas com os professores. São eles as pessoas mais capacitadas, não para o diagnóstico, mas para traçarem uma avaliação do comportamento da criança. Os pais estão emocionalmente envolvidos e fica difícil para eles assumir essa tarefa.

Drauzio – No tratamento das crianças com depressão há sempre necessidade do uso de medicamentos?

Sandra Scivoletto – Não. Na infância, conseguimos controlar alguns casos leves e reconhecidos precocemente com auxílio psicoterápico e a orientação dos pais. Entretanto, como a depressão tem um componente genético muito forte, a necessidade de medicação torna-se quase compulsória.

Drauzio – Como nos adultos, a medicação precisa ser usada por bastante tempo?

Sandra Scivoletto – Não. Felizmente, a criança responde muito mais depressa aos medicamentos do que o adulto e, quanto menor for o tempo de uso da medicação, melhor. O que se faz, nesses casos, é indicar um antidepressivo numa dose a mais baixa possível até a criança começar a apresentar o comportamento esperado para a idade. Isso demora uns dois meses aproximadamente. Sedimentado esse comportamento, suspende-se o remédio, mas tanto a introdução, quanto sua retirada, é feita aos poucos, lentamente.

 

Você gostou da entrevista e tem algo a dizer sobre o tema? Tem alguma   história de depressão na família ou viu algum amigo passar pelo problema. Você mesmo esteve ou está deprimida e gostaria de contar a sua história? Simplesmente deseja emitir uma opinião sobre o assunto? Escreva um post falando sobre o tema depressão, deixe o link na seção de comentários e concorra a um exemplar do livro Uma história de grande porte , da escritora Roberta Fraga. O livro trata com delicadeza a depressão infantil e é uma excelente leitura para crianças e adultos. Nos próximos dias falaremos mais sobre  o tema e apresentarei a autora melhor.

grandeporte

 

4 comentários:

  1. Nossa, gostei bastante da materia, vou escrever sim - volto mais tarde com o link do post!

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  2. Informação da maior importância.

    Imagino que crianças tomadas como pouco participativas, anti-sociais e com deficiência de aprendizado sejam tratadas de forma errônea.

    É preciso um diagnóstico mais profundo.
    Muito bom que este assunto seja levantado.

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  3. Olá, eu vim retribuir a visita no Quiosque Azul, que sei que lhe deixou triste. Saiba que ele partiu em paz, grande amigo, pessoa e espírito.

    Na verdade, estou lenta para a continuação, pq estou com problemas, mas vou indo... indo e vou!

    Este seu post tem muito a ver com que eu e minha filha temos passado.

    Beijos

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  4. Informação da maior importância.

    Imagino que crianças tomadas como pouco participativas, anti-sociais e com deficiência de aprendizado sejam tratadas de forma errônea.

    É preciso um diagnóstico mais profundo.
    Muito bom que este assunto seja levantado.

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